- É uma menina!
O clima no quarto principal da casa dos Véridi era de alívio e gratidão... Parecia que até os sinos da Capela próxima comemoraram, badalando e avisando a hora do Angelus. Depois de três dias de sofrimento e temor, Ana trazia ao mundo sua primeira filha.
- Dona Júlia, que horas são?
- Poucos minutos se passaram das 18:00h... Mas não se preocupe com isso, descanse, foi um longo trabalho de parto, Dona Ana.
A parteira da região era famosa por conseguir salvar vidas de mães e filhos, quando a única esperança era rezar. Mas não por menos, Dona Júlia no alto dos seus 62 anos, cultivava e defendia uma fé pura em Deus, na Santíssima Virgem e na intercessão dos Santos. Sua postura encurvada não se devia só à idade, mas também a longos períodos de oração e meditação; dona Júlia tinha certeza de que era só um instrumento nas mãos do Criador. E enquanto limpava a recém nascida e a preparava para entrega-la à mãe, rezava baixinho a Salve Rainha em agradecimento à Mãe de Deus por mais uma vida que vinha ao mundo.
- Vai se chamar Maria – disse a mãe ao tomá-la em seus braços – eu não poderia escolher outro nome, vejam, nasceu num sábado, bem na hora do Angelus... minha Maria...
- É um lindo nome, dona Ana, mas por favor, precisa repousar. Nem vou mandar chamar o Seu Umberto agora.
Ana não pôde recusar, realmente estava fatigada... depois falaria com o marido, depois receberia visitas. Ana tinha fé, mas teve medo. Medo de sua filhinha morrer, medo de morrer e deixar seu marido e sua filha... Mas agora, as dores se foram, e ela estava plena de felicidade; exausta, mas radiante! E sentindo o calor da pequena Maria em seus braços, murmurando agradecimentos e preces, Ana adormeceu.