segunda-feira, 16 de maio de 2022

16 DE JULHO, PRIMEIRA ROSA


- Maria! Maria!

A porta do quarto já havia empenado devido aos golpes diários que recebia... Era assim que Maria era despertada todas as manhãs. Não que não tivesse despertador no quarto, o fato é que ela detestava acordar cedo, e detestava aquele quarto, e detestava aquela casa, e detestava aquele nome...

- Maria! 

- Já vou! – Mais um dia repleto de amargor e tédio começava. Todos os dias Maria se arrastava da cama ao banheiro, amaldiçoando o velho papel de parede rosa-chá estampado de lacinhos, que conhecia desde quando ela dormia em um berço,  colocava o dedo na língua na direção da cortina de voal pérola com bandô de renda, dava um tapa pra derrubar uma das muitas bonecas de pano, feitas por sua mãe quando ainda era criança e que ela jamais se cansava de recolocar na prateleira... e com maior repulsa olhava para o próprio leito que doía de tão infantil: adornado por uma cabeceira provençal branca, lençóis e colchas em tons rosados com barrados bordados, um quadro do Anjo da Guarda na parede e uma imagem de Nossa Senhora Menina no criado-mudo... Maria perdeu as contas de quantas vezes encaixotou aquelas coisas, mas sempre quando voltava ao quarto, encontrava tudo de volta no lugar. Por fim ela decidiu ignorar aquilo tudo.

 - Os velhos e suas manias...

Olhar o próprio reflexo no espelho era um terror para Maria, não havia nada em si que gostasse realmente, especialmente aquilo que fazia lembrar o pai; Quisera ela ter cabelos loiros platinados, olhos azuis cintilantes, um corpo proporcional e acinturado, dedos mais finos, sobrancelhas mais grossas... Mas que nada, cá está Maria, normal e despercebida... 

Fazendo pausa nas próprias ruminações acerbas, Maria terminou de se vestir e num movimento rápido e rotineiro ia passando pela escrivaninha ridiculamente provençal quando viu uma rosa vermelha em botão na janela. Maria poderia ter ignorado aquilo como um dos muitos truques furados de sua mãe para tentar uma “reaproximação”, mas havia algo estranho naquela rosa. Ela parecia pulsar... Tinha cores muito vivas, desde o vermelho de sua pétalas até o tom verde-amarronzado dos espinhos, sem contar o perfume... Ela pegou a rosa, inspirou o aroma, com os olhos fechados, a ponta do nariz sentindo a suavidade das pétalas... Algo aqueceu seu coração... De repente, mais uma leva de batidas a arrebatou de suas sensações.

- Maria! Só faltam quinze minutos para a missa começar!

- Que saco! Já tô saindo!

Maria abriu a gaveta da escrivaninha e jogou o botão de rosa, se esquecendo completamente das impressões que acabara de provar e saiu batendo a porta do quarto. 

Os domingos na vila eram movimentados. O Padre Getúlio vinha da cidade para celebrar a Missa às sete da manhã. A capela de Nossa Senhora de Lourdes ficava cheia, sempre. E depois da missa o padre ouvia as confissões, tinha quermesse na pracinha desgastada pelo tempo, mas muito bem cuidada pelo Seu Joaquim. Cada pastoral ou movimento era responsável por preparar os lanches a serem vendidos a cada semana. Tinha sorteio de frango assado, pula-pula para as crianças… Quando o povo começava a dispersar já era quase hora do almoço, e não é difícil imaginar alguns domingos em que até mesmo esta refeição era servida gratuitamente no salão da Igreja. 

Maria assistia ao Santo Sacrifício sem nenhuma devoção ou respeito. Durante todo o tempo da Celebração ela ficava sentada ao lado de sua mãe. Hora contava as teias de aranha no telhado, ora as rachaduras novas nas paredes, ora as partículas de poeira flutuando à luz do Sol nascente…

Terminada a Missa, a menina tinha de esperar a mãe cumprimentar todos os amigos, isso quando não era dia de confissão… comer algum dos lanches da quermesse pra ajudar a Igreja, e só depois ela se via livre pra se trancar de volta em seu quarto pelo resto do dia. Nesta tarde, teria de passar estudando, teria prova de Biologia no dia seguinte.

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Rosas na Janela - Prólogo

  - É uma menina!

O clima no quarto principal da casa dos Véridi era de alívio e gratidão... Parecia que até os sinos da Capela próxima comemoraram, badalando e avisando a hora do Angelus. Depois de três dias de sofrimento e temor,  Ana trazia ao mundo sua primeira filha. 

    - Dona Júlia, que horas são? 

    - Poucos minutos se passaram das 18:00h... Mas não se preocupe com isso, descanse, foi um longo trabalho de parto, Dona Ana.

    A parteira da região era famosa por conseguir salvar vidas de mães e filhos, quando a única esperança era rezar. Mas não por menos, Dona Júlia no alto dos seus 62 anos, cultivava e defendia uma fé pura em Deus, na Santíssima Virgem e na intercessão dos Santos. Sua postura encurvada não se devia só à idade, mas também a longos períodos de oração e meditação; dona Júlia tinha certeza de que era só um instrumento nas mãos do Criador. E enquanto limpava a recém nascida e a preparava para entrega-la à mãe, rezava baixinho a Salve Rainha em agradecimento à Mãe de Deus por mais uma vida que vinha ao mundo.

    - Vai se chamar Maria – disse a mãe ao tomá-la em seus braços – eu não poderia escolher outro nome, vejam, nasceu num sábado, bem na hora do Angelus... minha Maria...

    - É um lindo nome, dona Ana, mas por favor, precisa repousar. Nem vou mandar chamar o Seu Umberto agora.

    Ana não pôde recusar, realmente estava fatigada... depois falaria com o marido, depois receberia visitas. Ana tinha fé, mas teve medo. Medo de sua filhinha morrer, medo de morrer e deixar seu marido e sua filha... Mas agora, as dores se foram, e ela estava plena de felicidade; exausta, mas radiante! E sentindo o calor da pequena Maria em seus braços, murmurando agradecimentos e preces, Ana adormeceu.